sábado, junho 13, 2015
Skip a Heartbeat
segunda-feira, junho 25, 2012
Péssima Idéia.
Todos os dias Juliana acordava apaixonada.
segunda-feira, maio 07, 2012
- Olha só, eu não tô te cobrando nem nada, ok. – Ela se ajeitou na cadeira. – Mas, tenho uma curiosidade... porque você nunca disse que me amava?
Ele riu.
- Não é engraçado. – ela arqueou a sobrancelha.
- Eu nunca disse que te amava, porque eu nunca achei que fosse necessário. Mesmo porque, eu não entendo muito de amor.
- Mas então, porque você quis ficar tanto tempo do meu lado?
- Porque eu te adoro.
- Adora? Assim, no presente?
- É. – ele riu de novo, tomou um gole da soda italiana de maçã verde e voltou a falar. – Adorar, acho, é o sentimento mais intenso que se pode ter. Mais do que amor.
- Adorar, tipo Deus?
Ele ficou levemente constrangido, levou a mão até a barba rala e coçou como fazia quando pensava duas vezes antes de dar uma resposta.
- Não é tipo Deus, mas é. Eu não rezava para você, mas todas as vezes que conversava sobre você com alguém, dizia o quanto você era uma parceira incrível, o quanto estar ao seu lado me fazia bem, o quanto você era uma pessoa justa, inteligente, charmosa. E todas as vezes que estava sozinho, me pegava pensando em você.
Ele continuou.
- Eu não louvava você. Mas cansei de cantar pra você no violão, olhando nos seus olhos pra ter certeza que você sabia. Que você entendia que todas aquelas palavras bonitas, escritas por outra pessoa, tinham pra mim um significado especial, que elas tranquilamente poderiam ter sido escritas por mim, pensando em você. E eu não ia a igreja nos domingos, mas eu ia pra casa dos seus pais, almoçar com a sua mãe e provar para o seu pai que tudo o que eu mais queria era ficar perto de você, mesmo passando as tardes assistindo ao jogo do São Paulo e aguentando gozação dos amigos depois.
Dessa vez foi a vez dela rir.
- E eu não fiz guerra por você, mas você sabe todas as discussões que eu tive com a minha mãe quando ela me dizia que você ia me trocar por um cara mais velho, mais bonito, mais rico. E eu ainda tenho alguns hematomas das vezes que eu tive que apanhar de alguém na balada pra não deixar ninguém encostar em você.
Ela baixou o rosto.
- Adorar é tipo colocar alguém num lugar mais alto do que o seu. Tipo uma escadinha, onde você está feliz só por ficar olhando lá de baixo. É perceber todas as qualidades, apreciar todos os defeitos, e ser feliz por ter feito a escolha certa de estar ali. E não é porque você me trocou por um advogado rico, famoso e bem mais bonito do que eu que eu vou deixar de achar isso. Mesmo porque, eu sei que você me trocou por amor. Por isso ainda somos amigos.
Ela acendeu um cigarro, desconfortável. A franqueza com que ele falava as coisas costumava ser sempre desconcertante.
- Você é feliz? – ela perguntou, baixo.
- Felicidade é poder escolher. Eu sou um cara de sorte. Pude escolher me envolver com as pessoas certas, pude escolher meu trabalho, pude escolher minha família. Eu não olho pra trás e penso “e se?”. Eu construi, eu vivi, e eu tomei minhas decisões da forma mais sincera que eu pude, e não faria diferente.
- E se nós ainda estivéssemos juntos?
Ele a olhou nos olhos, um sorriso doce nos lábios.
- Se nós ainda estivéssemos juntos, você não seria quem você é hoje. E eu não seria quem eu sou. Não teríamos tido os momentos de decisão que seguiram nossa separação até hoje. Não teríamos feito as escolhas que fizemos. Talvez nem tivéssemos a mesma relação que temos, nem a que tínhamos. Eu sou feliz, assim, e não acho que poderia ser de outra forma.
sexta-feira, março 23, 2012
Tudo e Nada.
Ele sofria de Tudo. Quando emprego a palavra, não é pensando no sentido mais comum do seu uso – não é como ele sofresse por tudo. Ele sofria de Tudo. Da abundância das coisas. Era do tipo que guardava, que possuía, que lembrava. Toda informação, informação de mais, era acumulada. Ele sofria com o sofrer do outro, com a felicidade do outro, sofria por ter tudo dentro de si e não conseguir colocar nada para fora. Era um colecionador por natureza, um acumulador de todas as coisas. Qualquer coisa significava tudo.
Ela sofria de Nada. E quando digo nada, não é dizendo que nada fazia-a sofrer. Ela sofria com a ausência, com a falta, com o vazio. Tudo, pra ela, significava nada mais que nada. Ela precisava ter sempre tudo perto, tudo que era dela, tudo que ela desejasse. Uma necessidade inerente de tentar tudo para preencher o nada que ela carregava dentro do peito. Ela não conseguia absorver, não conseguia trazer consigo, não conseguia fazer ter apego. Nada significava alguma coisa.
Quando se falaram pela última vez, amigos que eram, ele, que tinha Tudo dentro de si, não compreendia como ela, que não carregava Nada, conseguia ser tão triste. Não sabia que podia se sofrer de Nada, e que quando nada é capaz de te tocar, você se sente cada vez menos gente. Já ela, questionou como ele, que tinha Tudo, lembrava de tudo, sentia tudo tão intensamente, que era tão humano e tão bonito, podia ser infeliz. Não sabia que pode se sofrer de Tudo. Que o peso de tudo é muito mais do que alguém pode carregar.
Ele respondeu:
- Sofro, porque sinto o mundo em mim. Porque para todo aqui, carrego tudo o que está lá comigo.
Ela respondeu:
- Sofro, porque tenho saudade de tudo que não consigo ter em mim. Eu tenho saudade de tudo que não é aqui.
quinta-feira, dezembro 22, 2011
O Universo e Você
Lembrava-se dela na época da escola. Pequena, magra, os olhos escuros demais e marcados pela maquiagem gasta do dia anterior. Ela gostava de livros complexos, e ele gostava dos movimentos intermitentes dos seus dedos nervosos. Impaciente, porém centrada. Ele sabia, desde cedo, que ela não era daquele lugar, que ela não pertencia dentro dela mesma, e ela estava aprendendo lentamente a mesma coisa. Não foi com surpresa, então, que recebeu a notícia quando se formaram: “Eu vou embora.”
Ele podia ter dito uma centena de motivos para os quais ela deveria ficar, todos eles convincentes, todos eles apaixonados. Ela entenderia, aceitaria, mas não abdicaria da sua inquietude e o anseio da partida iria acompanhá-la para sempre. Então, ele simplesmente sorriu, balançou a cabeça, beijou-a no rosto e desejou boa sorte.
Quando o telefone tocou naquela manhã e interrompeu a sua rotina diária e enfadonha, esperava que fosse algum atendente de telemarketing. Foi sincero ao dizer que não reconhecia a voz do outro lado. Não adivinhou quem poderia ser. Não lembrou de nenhum dos momentos descritos, e ela enfim, desistiu: “Sou eu, Luana.”
Quinze anos depois, ela não parecia a mesma pessoa. Nem ele. Deixou a barba crescer, emagreceu alguns quilos e cortou o cabelo. Usava jeans e camiseta, simples, como era sua personalidade. Muito diferente dela. Não que suas roupas fossem extravagantes, não eram. O problema eram seus olhos. O negro profundo e a maquiagem gasta foram substituídos por um olhar que parecia carregar todo o conhecimento reunido do mundo. Com os olhos, ela enxergava o universo dentro dele e muito mais. Ela sorria enquanto segurava nos dedos uma xícara de café. Ele estava atrasado.
- Ei... Bruno. E aí... – ela disse com carinho, beijou o rosto dele e balançou a cabeça. – Sentaí.
Ele retribiu e sentou-se. Olhou para o garçom, chamou-o e pediu uma soda italiana de maçã-verde. Quando voltou-se na direção dela, ela o encarava.
- Como você tá? Quanto tempo faz que voltou pra cá? – ele perguntou. Ela sorriu.
- Voltei ontem a noite. Não foi fácil te achar...
- Quinze anos, não deve ter sido fácil de achar a sua mãe... – ele sorriu, ela riu de forma contida.
- Você tá igualzinho. – ela bebeu mais um gole do café.
- Você não. – ele aceitou a bebida do garçom e voltou a observá-la com mais atenção. Percebia que toda a inquietude fora substituída por uma intensa calma.
- Quinze anos é muito tempo.
- É. Eu não.
- Que bom.
- Bom? – ele ergueu a sobrancelha, curioso.
- É. Estava torcendo pra você ter continuado a mesma pessoa.
- Porquê?
Ela se ajeitou na cadeira e franziu o cenho, como se estivesse prestes a dizer alguma coisa muito importante.
- Eu acredito que algumas pessoas já nascem completas dentro delas mesmas. Elas são suficientes por si próprias. São pessoas que não precisam de referência pra saber o que é certo, o que é errado. Que tem sentimentos profundos antes mesmo de saber o que eles significam. Acho que você é assim, por isso não precisa mudar. Eu, eu era incompleta, inquieta, ávida, impaciente. Eu precisava me descobrir.
Ele pareceu encabulado por alguns segundos.
- No entanto, eu sou uma pessoa simples. Você carrega o universo que somou nas suas experiências dentro do olhar. Eu vejo em você o peso das suas vivências e uma leveza transparente de quem já não precisa mais de nada a não ser si mesma.
- Mas eu preciso...
- Do que?
- Você já ouviu dizer que algumas vezes precisamos dar a volta mais longa para atravessar a rua, somente para chegarmos no mesmo lugar que chegaríamos de qualquer jeito? - ela estendeu a mão por sobre a mesa, encostando a ponta dos dedos na mão dele. Ele pareceu incomodado.
- Já.
- Eu sempre soube que chegaria aqui. – e segurou a mão dele.
quinta-feira, agosto 18, 2011
Olhares
Ele se movia despretensiosamente.
Escondia-se atrás de uma multidão de pessoas que seguiam as batidas do ritmo intenso e ululante da canção. Ela ecoava pelo salão, vibrando com a pele, arrepiando os pelos, aflorando emoções.
Ao olhar ao redor, por sobre os ombros das pessoas que se moviam, percebia que praticamente todas as paredes da casa se tornaram pequenos nichos de suor e beijos. Suor, esse, que escorria de forma vertiginosa das suas têmporas. O coração batia de forma acelerada, fosse pelo energético em suas mãos ou pela sensação de claustrofobia que hora ou outra tomava conta da sua mente por alguns segundos. Era costumeiro que ele precisasse concentrar-se em locais abarrotados.
Decidiu que era hora de trabalhar. Sacou da capa de proteção a máquina fotográfica: irritava-se, com freqüência, com sua profissão. Achava que hoje em dia todos que compravam uma câmera profissional automaticamente transformavam-se em fotógrafos, e isso desvalorizava o trabalho de tantos outros como ele.
Começou a fotografar algumas cenas, alguns rostos, algumas pessoas. Hora ou outra um braço, uma perna ou uma cabeça interferiam no quadro que ele buscava, mas já estava acostumado. Hora ou outra, uma mão encostava no seu corpo, mas ele aprendera a ignorá-las. No entanto, uma segurou-lhe com mais intensidade. Intensidade delicada de mulher. Ele moveu o rosto na direção da mão, já começando a pronunciar uma desculpa qualquer.
- Desculpa, não consigo te...
Ela sorriu, arqueou a sobrancelha escura e encarou-o nos olhos.
Ele parou. Balançou a cabeça.
- Desculpa, eu não te ouvi.
- Tudo bem, ninguém consegue ouvir ninguém aqui dentro. A não ser que realmente preste atenção. E, bom... normalmente ninguém tá afim de prestar atenção em muita coisa por aqui. – ela falava com naturalidade, encarando-o nos olhos.
- Verdade.
- Menos você, né?
- Menos eu? – ele franziu o cenho, cerrou os lábios e fez uma expressão de profunda curiosidade. – Porque eu seria diferente?
- Sei lá. Porque você é fotógrafo?
- Hoje em dia todo mundo é fotógrafo.
- Será? – ela soltou uma risada baixa e gostosa. – Acho que é verdade. Mas eu vi você olhando em volta, na verdade, eu também sou fotógrafa. Do meu próprio jeito.
- Ah é? E qual é o seu jeito?
- Eu fotografo com o olhar. Acho que as coisas mais importantes não podem depender de uma máquina fotográfica digital, de bytes de memória. As imagens mais importantes ficam gravadas aqui – gesticulou - no peito, e na alma.
- Faz sentido.
- É, eu sei. – ela riu de novo. Os dentes brancos e perfeitamente alinhados, o rosto vermelho de calor, e os olhos. Os olhos eram negros, como poços profundos de algum tipo de sofrimento ou angústia que ele não sabia distinguir. As curvas acentuadas formavam pequenas ameixas. Ela sustentava o olhar com a rigidez de quem sabe que o importante mesmo não é ver e sim enxergar. Ela continuou.
- Olha só, faz o seguinte. Tira uma foto minha? Só não vai colocar em nenhum site de balada. Muita exposição.
-Tudo bem.
Ela se afastou dois pequenos passos e aguardou. Ele fixou os olhos nela e os manteve ali, por um tempo incontável, uma distorção de alguém que vive em algum lugar por um longo tempo, anos, embora jamais saia do mesmo segundo.
- Pronto.
- Pronto?
- É. – ele sorriu.
Ela fez um maneio com a cabeça, deu as costas e sumiu entre ombros e braços. Cabeças e copos. E ele ficou com a foto.
terça-feira, agosto 16, 2011
Mãos no bolso, ela olhava o horizonte como se alguma coisa muito mais interessante que os olhos escuros, vermelho-irritados por alguma ansiedade da alma, que a encaravam, estivesse acontecendo.
Ele aguardava como fazia a maioria das vezes que se via nessa situação. Considerava surreal a maioria das coisas que ouvia, pensava ou dizia quando se estava sentado frente a frente com ela. Talvez fosse por isso que sempre retornava.
- Não diga que sou fria. – ela disse, em tom frio. As primeiras palavras a escapar os rubros lábios grossos que contrastavam com a pele clara. – Eu sou apenas eu. Você é apenas você. Você sente a necessidade urgente de fugir, de correr, quando as coisas não cabem dentro do seu quarto imaginário. Você precisa sempre se refugiar em algum lugar dentro de você onde ninguém pode te alcançar, e realmente consegue.
- O que você quer dizer com isso? – ele, num tom questionador, irritadiço. Covarde.
- Quero dizer que, como sempre, você é extremamente bem sucedido naquilo que decide pra você. Nesse caso, você é extremamente bem sucedido em se acovardar dentro de si mesmo, de não permitir a exposição por medo sabe lá Deus do que. – ela removeu a tampa do isqueiro elétrico com agilidade e passou a brincar com ele entre os dedos.
- E porque eu deveria me expor? Não é suficiente estar aqui? – ele deu de ombros e ousou um sorriso contrito. De lábios finos. Minguante.
- Nunca é.
- Porquê?
Ela voltou os olhos na direção dele e percebeu o sorriso minguante como uma reação assombrosa de medo disfarçado de descaso. De querer ter controle da situação.
- Porque você não pode passar a vida inteira esperando que as pessoas te vejam como você quer que elas vejam. E não pode fugir todas as vezes que alguém atravessa essa camada. Você devia dormir pelado.
- O que diabos isso tem a ver com qualquer coisa? – se mexeu na cadeira, sentindo-se desconfortável. Ela e o poder mágico de tirá-lo do foco.
- Seu sorriso não é tão significante quanto gostaria. Você não tem o poder mental de manipular objetos ou pessoas à distância, você não é um astro de futebol e nem um grande jogador profissional de poker. A maioria das pessoas não prestaria a menor atenção em você, não fosse pelo interesse de te ver nu. Então, durma pelado. Quem sabe você passa a se habituar com a idéia de que não é tão especial assim, que todos tem medo como você e a diferença é que alguns realmente ousam dizer isso em voz alta ao invés de pegar a mala e sair pela porta da frente, deixando para trás um bilhete espirituosamente sarcástico.
- Eu não sou tão bonito assim para que as pessoas queiram me ver nu.
- Mais um motivo, então. Se nem bonito você é e mesmo assim eu, que sou muito melhor que você, quero te ver nu, você não precisa ter medo de nada.
E o beijou.
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
Você já esticou o braço para tentar alcançar uma coisa sabendo que estava distante demais para conseguir pegar. E então, concentrado, esticou todos os músculos até encostar a ponta dos dedos nela e pensou consigo mesmo como seria mais fácil com alguns centímetros a mais?
Então, reunindo uma força de vontade acima do comum, num sinal da mais profunda superação ou sob influência divina do destino, você a agarrou - fosse por um movimento de ombros que você desconhecia, ou uma manobra arriscada de movimento dos dedos, ou até mesmo um estalo repentino da sua coluna permitindo um pouco mais de mobilidade.
E um sentimento efusivo de felicidade preencheu seu peito, um sentimento de vitória, de conquista, e por dentro, você se gabou da sua força resoluta.
Mas você sabia que aquilo que você queria alcançar estava distante demais. Demais. Fora do alcance de qualquer gesto seu, qualquer movimento dos dedos, qualquer alongar da coluna. Seus dedos então tremeram, uma pontada de dor percorreu suas costas, sua manobra de ombro perdeu a consistência e você fraquejou - aquilo que você buscava, deslizou em câmera super slow motion pela palma da sua mão, escorregando na direção do vazio, afundando-se, distanciando-se e perdendo-se no escuro.
Qual seria a sua reação? Um grito de desespero? De susto? Um acelerar das batidas do seu coração? Um espasmo muscular involuntário na palma do pé? Você é um covarde?
Ou você levantaria da sua zona de conforto, saltaria no vazio de braço estendido e perseguiria o seu sonho até novamente alcançá-lo? Distante primeiro, depois com a ponta dos dedos, e por último, na palma da sua mão?
quinta-feira, setembro 16, 2010
360° Comunicação Sem Limites: 360 PRO MULTIS - Amor é troca.
quarta-feira, janeiro 06, 2010
What a Difference a Day Made
Ela teve um dia cheio.
Acordou cedo para ir tomar sol, o dia estava bonito e ela não gostava de pensar que não aproveitava essas oportunidades de todas as formas que podia. Ao meio dia, vestiu-se e almoçou sozinha em um restaurante vegetariano próximo de casa – soja e verduras, precisava cuidar da alimentação, não queria engordar.
As duas foi direto para o cabelereiro. Sexta era dia de transformar-se em princesa, unhas, depilação, mãos, cabelo, um penteado novo, um corte diferente. À noite, havia combinado um cinema com as amigas embora estivesse com preguiça. Foi, mesmo assim, sabendo que elas não perdoariam uma ausência injustificada. Jantaram na cantina italiana do pai da amiga morena, enquanto comentavam sobre como o relacionamento da amiga loira havia progredido bem – ninguém esperava. Uma taça de vinho, duas, o cinema acabou ficando para outro dia quando o relógio tocou meia noite.
Chegou em casa quase a uma, depois de dirigir devagar e com cuidado para não ser parada por nenhuma blitz. A secretária eletrônica piscava: 1 mensagem recebida. Foi até a cozinha, serviu um novo copo de vinho enquanto assistia o Programa do Jô. Uma hora depois, decidiu apertar o botãozinho que piscava insistente.
“Pequena,
Tenho certeza que seu dia foi corrido, como o meu também. Tentei te ligar algumas vezes, mas você não devia estar em casa. Acho que você esqueceu do nosso encontro, mas tudo bem. Só queria que você soubesse...
Hoje, o meu dia foi seu.
Lembrei-me de você ao despertar, com o cheiro dos seus cabelos lavados no meu travesseiro. Meu café da manhã não foi o mesmo sem o seu sorriso branco e as risadas que damos quando sua boca fica suja de Nescau.
Aqui perto do trabalho choveu bem pouquinho, aquela chuva rápida de dia quente, que serve pra deixar um rastro de arco-íris no céu, e o céu azul tinha a cor dos seus olhos, e pensei em como seria bom passar a tarde toda com você. Pedi licença pra te ver e te esperei naquele bistrô perto do parque, onde nos conhecemos.
Confesso que fiquei decepcionado, não por você ter esquecido, mas pelas expectativas que eu havia criado. Mas não faz mal. Deixei na sua portaria o CD do John Mayer que você queria emprestado, e espero que ouça quando for dormir e pense um pouquinho em mim. Eu penso em você todo o tempo. Te amo.”
Ela baixou a cabeça e sorriu envergonhada, sozinha, enquanto deslizava os dedos pela franja, colocando-os para trás.
Foi então que percebeu – ela teve um dia vazio.
quinta-feira, dezembro 10, 2009
Mensagem Enviada com Sucesso
Ele caminhava pelas ruas iluminadas de Amsterdam, cambaleava e tropeçava nas pessoas que andavam no sentido contrário. Os cabelos negros bagunçados, os olhos marcados por noites sem dormir. Vez ou outra abria caminho com um dos braços, a outra mão segurando forte algo que lhe parecia muito valioso, embora na verdade não fosse – achava engraçado como atribuía significados especiais a coisas materiais sem muita importância, nesse caso, seu celular.
Embora estivesse em movimento, estava, na verdade, em espera. Imaginava-se parado e estático na frente de um desses pubs de iluminação avermelhada, parede de tijolos, onde Chet Baker provavelmente esteve algum dia bêbado e vomitando no chão. A música na sua cabeça, como não podia deixar de ser, era um trompete triste e depressivo de blues. Queria gritar, estava ansioso, não podia esperar, queria esperar, não sabia esperar. Não importavam-lhe os fusos e a distância, queria poder fazer com que tudo fosse perto, um piscar de olhos, um bater de asas.
Hora ou outra abria o celular e observava o LCD como se fixando o olhar sobre ele e desejando muito, alguma coisa fosse acontecer. Esbarrou em um homem pouco mais alto que ele com alguma força e achou que o celular fosse voar de suas mãos para dentro de um dos largos canais da cidade, imaginou-o escapando-lhe por entre os dedos, quicando uma vez no chão e pode escutar o som da água espirrando e engolindo o aparelho. Via sua cara de desespero, sua cara covarde de quem não pode fazer nada para impedir. Segurou o aparelho mais forte e respirou fundo. Pediu desculpas já a muitos passos do homem com o qual trombara e que pareceu pouco se incomodar – ou se quer notar – absorto também na sua espera.
Acreditava que todos esperavam por alguma coisa. Que todos, em seu íntimo, tinham alguma coisa por acontecer, alguma coisa que eles almejavam e aguardavam, que sabiam que aconteceria em algum momento – um momento que eles não possuíam o controle, mas que desejavam com toda a intensidade que fosse logo. Acreditava também que todas essas pessoas, como ele, temiam não estar prontos para esse acontecimento. Que ele chegasse em hora malquista ou que por algum motivo eles não pudesse lidar com ele, ou até mesmo percebê-lo chegar.
Parou em frente a uma loja de conveniência vinte e quatro horas, toda iluminada e bastante movimentada. Jovens entravam e saiam, ele observava. Sentou-se em um banco de madeira em frente a ela. Encostou a cabeça atrás e observou o céu cinzento e repleto de nuvens, ouvia o som dos passos, das bicicletas, do canal. Do celular. Ele vibrava entre seus dedos a alguns segundos, mas ele não sentira antes. Um momento de expectativa eterna precedeu o movimento das suas mãos, abrindo o celular, clicando automaticamente no aviso de “Nova Mensagem Recebida” e levando-o até os olhos.
“Não se preocupe, meu amor. Estou te esperando. Te amo, sinto sua falta. Volta logo. Beijos.”
Ele sorriu aliviado conforme os primeiros grãos de neve começavam a cair.
segunda-feira, novembro 16, 2009
O Convidado Surpresa
"e então tive a impressão de estar interpretando sorrateiramente uma cena e de ser ator de mim mesmo e dos meus sentimentos como se naquele momento não houvesse outra saída para mim senão imitar o que eu sentia e dar àquilo uma representação perfeita e padronizada segundo as leis confortadoras da ficção. Eu só existiria nesse esforço de falsificação e não no que eu sentia e naquilo a que não tinha mais acesso senão por meio de uma idéia pronta e simplista e aceitável e plausível e cômoda (...) o que numa situação como a nossa, era exatamente o que devia ser feito: suspender o tempo para fazer crer que o indizível se manifestava e arrastava consigo toda a tristeza enterrada do mundo e, afinal, talvez fosse verdade, sim, por mais que eu conhecesse esse silêncio artificial e fingido, e que não passa de um clichê, como se diz, contra a minha vontade me deixei levar e nele me engolfei e de repente me senti comovido e sincero e próximo dela como em nenhum momento desde que ela telefonou e tornei a vê-la..."
por Grégoire Bouillier
quarta-feira, novembro 04, 2009
Toothpaste Kisses
Ela acordou primeiro, com cuidado, se desvencilhou dos braços dele, levantou-se da cama e foi até o banheiro. Escovou os dentes. Voltou, deitou-se novamente. Arrumou os braços dele em volta do seu corpo.
Ele acordou em seguida, os braços doendo, tomou cuidado para não despertá-la, levantou-se da cama e foi até o banheiro. Escovou os dentes. Foi até a cozinha, preparou uma bandeja com suco, frios, pães. Retornou.
Ela se manteve deitada. Fingiu dormir. Sentiu falta dos braços dele. Dos beijos dele. Ouviu os passos do banheiro à cozinha. Da cozinha à sala. Da sala ao quarto, passando pela porta. Riu baixo, virou-se de lado.
Ele trupicou e de uma topada na porta, xingou baixo. Ouviu uma risada, mordeu o lábio inferior. Ignorou. Entrou no quarto e a observou de lado por alguns segundos – sorriu. Apoiou a bandeja sobre o edredom, sobre a cama.
Ela se mexeu, entreabriu os olhos, piscou várias vezes. O observou com os olhos semicerrados, sem camisa. Tomou cuidado para não derrubar a bandeja com os pés. Acompanhou a linha da coluna dele, de costas, e sentiu o ar tocar seu rosto.
Ele deu as costas, entreabriu a janela deixando a brisa da manhã varrer o quarto. Junto dela, o quarto se iluminou. Ele coçou a nuca, virou-se para a cama, seus olhos encontrando os dela, semicerrados. Sorriu.
Ela sentou-se na cama.
Ele sentou-se na cama.
Ela estendeu a mão.
Ele pegou a mão.
Ela se aproximou.
Ele a trouxe para perto.
Beijaram-se.
Gosto de pasta de dente.
terça-feira, outubro 27, 2009
E Se Eu Pudesse
E se eu pudesse, moldaria o vazio das suas palavras como um artesão. Preencheria esse vão silencioso de sorrisos e cores. Incitaria a risada mais alta, o gozo mais profundo. Escutaria atentamente seus sonhos, absorvendo-os, e com um lance de mágica, uma carta de baralho, uma moeda, e tornaria-os reais em sacrifício dos meus.
E se eu pudesse, seria leve como um poema de amor. Faria da nossa vida uma canção. Nossos problemas seriam um soneto de Petrarca, nossas preocupações vãs uma rima bonita. Todas as dúvidas seriam figurativas. As perguntas seriam retóricas, a respostas seriam beijos suaves com gosto de café e cheiro de cabelo lavado.
E se eu pudesse, enxergaria todos os seus defeitos, sua singularidade. Seria calmo e tranquilo, permitiria que o tempo passasse, que o beijo durasse, que o dia raiasse, que lua surgisse, que o pássaro cantasse, e quando tudo acabasse, de mãos dadas, sorriria um sorriso ébrio como a noite escura, despertaria ao seu lado e deixaria que meu carinho embalasse seu sono.”
quinta-feira, setembro 10, 2009
Uma Carta de Amor
Fiquei inspirado com a música da Tiê, mas no final, acho que saiu bem mais depressivo do queria. HAHAHA.
“Perdão,
Se escrevo é por covardia. Medo de que ao mover os lábios as palavras saiam carregadas de ironia. Medo de rir, ou sorrir, e fazer com que tudo o que eu tenho a dizer soe como mais uma brincadeira. Ou pior, de que a voz não saia, que a mente – confusa – troque o sentido daquilo que eu tanto ensaio para dizer.
Eu acredito nas cartas. No romance. Na conquista. No primeiro beijo. No amor. Acredito no tempo, que movimenta tudo e em algum momento faz com que as coisas se encaixem, pareçam certas. Acredito no mundo que gira e que, com isso, nos confunde com a tontura de infinitas possibilidades que parecem sempre melhores do que aquelas que já se apresentaram.
Tenho vergonha de repetir meu pedido de desculpas todas as vezes que te magôo ou te machuco quando tudo o que quis desde o primeiro momento foi cuidar para que você contabilizasse mais sorrisos que lágrimas, mais suspiros que soluços. Meus erros são constantes e tolos, eu sei. Mas são os erros de quem, ao seu lado, perde os sentidos – flutua. Você invadiu o meu quarto sem bater e mexeu nas minhas coisas, ocupou um espaço na minha cama, na minha vida, sem pedir licença, e eu não entendi como lidar com isso.
Você é uma surpresa – e dizem, as melhores coisas o são. Mas eu nunca soube brincar disso. Traço planos, crio metas e me foco em conseguir as coisas que me proponho - em seguir pela estrada que eu escolhi sem détour. Você veio como o vento, bagunçou meus cabelos e me chamou para seguir em outra direção, me tirou do chão. E eu, eu tenho medo de cair a qualquer hora, quando vento virar brisa, e a brisa não for suficiente para me manter no alto.
Eu te adoro. Se amar é aquilo que todos dizem, não é suficiente pra expressar meu sentimento. Te adoro como quem louva, quem se dedica sinceramente à outro. Como quem te tem como parte mais importante daquilo que sou, e que acredito.
E é por isso que parto.
Ou por isso, ou por medo. Por insegurança. Por saber que eu não sou o suficiente – que eu não sou surpreendente, que em breve o pouco que em mim te atrai vai se esvair. Que as minhas canções, que os meus conceitos, que as minhas piadas e a sua vontade de querer fazer com que tudo dê certo não vão bastar para sustentar nosso relacionamento. Eu te daria tudo, mas o que você precisa é mais do que o que eu tenho para dar.
Minha vida é como um rio, que partiu de uma nascente modesta para desaguar no mar que é você, e depois de fazer parte dele, chegou a hora de evaporar para desabar como chuva em outro lugar, seguir por outro leito e encontrar um lago para descansar.
Essa não é uma despedida, é uma carta de amor.
No futuro, quando eu não estiver mais por aqui, meu epitáfio irá dizer: aqui jaz alguém que amou você.
Porque para quem amou alguém, todo mundo é você.
Com carinho,
Theo.”
sábado, agosto 29, 2009
Use Somebody
Sempre acreditei no poder da troca entre as pessoas. Cada relacionamento estabelecido rende uma parceria diferente, uma troca diferente, e é isso que faz de cada contato social único da sua própria forma.
Algumas trocas são positivas, outras nem tanto. Algumas pessoas tomam de você o que você tem de melhor, e dão em troca muito pouco. Outras, com dedicação e carinho, acabam dando muito mais do que você esperava receber delas.
De qualquer maneira, conforme essa relação se desenvolve, vamos mudando também um pouquinho de nós mesmos. Aprendendo com nossos erros, com nossos acertos. Somando as influências daqueles que nos cercam e absorvendo algumas delas para nós mesmos – piadas, costumes, hobbies, estilos, comportamentos, conhecimento, seja o que for.
A projeção dessas influências é que nos transformam em pessoas diferentes. Somados aos acontecimentos do dia a dia – da vida, per se – é o que resulta em nossas mudanças de comportamento, de atitude – nosso amadurecimento, ou o que seja.
Aos poucos nós vamos nos distanciando do que éramos antes, lá no começo. Da forma como pensávamos, da forma como agíamos. E eu percebo, em mim, essas mudanças na forma com que eu lido com as minhas trocas.
Meu amadurecimento pessoal passa pelas minhas amizades e a forma com que eu lido com todas essas questões.
É bom saber que amizades antigas podem ser restabelecidas, que antigos amores podem virar amizades, que novos amigos podem ser grandes amigos, sem substituir aqueles que vieram antes deles, e que aqueles que vieram antes não deixam de ser importantes porque são trocas mais antigas – porque essas pessoas também as suas próprias relações, e se modificam com elas assim como você, crescendo.
Havia uma época em que eu simplesmente enjoava das pessoas. De uns anos pra cá, eu aprendi a escolher as pessoas das quais eu devo me cercar, pessoas que não importa o que aconteça, eu sei que nunca vou enjoar.
terça-feira, agosto 25, 2009
Timidez
Entrou. Som - alto. Barulho. Conversa. Parou. Olhou. Ouviu. Respirou. Comentou. Todos - riram. Riu - também. Caminhou. Empurrou. Abriu - espaço. Olhou. De novo. De novo. Coçou - a nuca. Dançou. Bebeu. Percebeu. Encarou. De novo. De novo. De novo. Baixou - a cabeça. Riu. Bebeu. Ofegou. Foi. Não foi. Colocou - a mão. No bolso. Dançou. Tropeçou. Mordeu - o lábio. Olhou - ao redor. Bebeu. Riu. Percebeu. De novo. Ainda - lá. Sorriu. Lábios - secos. Mão - molhada. Água. Cerveja. Bebeu. Ergueu - os olhos. Luz. Som. Movimento. Vontade. De fazer - xixi. Encarou. De novo. Arqueou - a sobrancelha. Respirou - fundo. Foi. Não foi. Respirou - fundo. Entreabriu - os lábios. Falou. Não falou. Gemeu. Resmungou. Ficou - em silêncio. Dançou. Riu. De - si mesma. Jogou - os cabelos. Prendeu - os cabelos. Decepcionou - se. Dançou. Riu. Sem - vontade. Respirou - fundo. Foi. Embora.
Queria dizer – podia.
Podia falar – queria.
Sabia dizer – não ia.
Não ia falar – sabia.
