terça-feira, setembro 23, 2008

Até que a Espanha não é tão ruim assim.

A primeira coisa a se perceber sobre a Espanha, e sobre o meu texto, é que ele provavelmente irá conter muito mais erros de grafia do que o costume. Isso se dá, principalmente, porque os espanhóis – por razoes que desconheço – não acreditam que nenhuma outra letra que não o Ñ mereça o uso de til. Não consegui entender ainda se é por algum fetiche, mas os teclados daqui nao tem a teclinha maledeta, e eu não faço idéia de como faz-se til usando o function. Aliás, eles também tem algum bloqueio com a cedilha, aqui ela só existe na versão maíuscula, o que é bastante desconfortável na leitura do texto.

A segunda e não menos importante coisa a se perceber sobre a Espanha, é que aqui, a moda do mullet não passou. Marcos Mion faria a festa em uma caminhada por Madrid. Todos os jovens são protótipos aprazíveis de chitaozinhos e chororós mirins, a única diferença é que ao invés de ouvirem sertanejo, escutam um tal de “ragaton” ou algo assim – à conferir.

Por último, talvez por culpa de desvios de criação que ainda não descobri (adendo: por algum motivo meu Word começou a corrigir as cedilhas e tils faltantes tentarei aproveitar ao máximo sua boa vontade e corrigirei acima) todos aqui – sem pular um – falam espanhol. O que é ruim, já que eu não falo, nunca falei, e provavelmente jamais vou conseguir aprender a língua. Mas descobri uma forma de me comunicar, é só pronunciar as palavras com os lábios mais próximos e cerrados o possível e com a voz ríspida, eles parecem se identificar e tentam compreender o que você diz com mais afinco.

Colocando tudo isso de lado, até que não é o pior lugar do mundo para se passar um tempo. As pessoas são bonitas, estilosas, e te dão coisas de graça eventualmente. Os homens não assobiam quando as mulheres atravessam a rua (mesmo porque, 90% são homossexuais), mas as mulheres sim. E nenhum carro tenta passar por cima de você enquanto tenta atravessar a rua – todos param e respeitam o pedestre coitado.

Tudo é muito próximo. Minha cidade tem 30 minutos de raio para qualquer lado, e Madrid fica a 30 minutos de distância. Em Madrid, de metro, você vai a qualquer lugar em 30 minutos. A bebida é barata, assim como a comida, e para minha felicidade existem salsichas (e agregados) de todas as formas imagináveis (falta só uma coxinha e um pastel de queijo pra ficar perfeito). A faculdade é linda e custa 2 mil euros por mês, o que invariavelmente me dá vontade de rir dos espanhóis mal-encarados... mal sabem eles que eu pago nem 400 euros.

O dia foi feito pra pessoas como eu, só amanhece as 8 e fica escuro depois das 10, excelente pra quem curte dormir o dia todo e acordar de noite – e ainda assim conseguir ver a luz do sol. Agora mesmo são 7h47 e ta começando a clarear. E eu to começando a ficar com sono.

Se a Espanha não é tão ruim assim, meu único pesar é saber que aqui me falta a minha melhor parte. Justamente a que mais me faz falta e a que me dá função. Essa parte, claro, é representada em boa parte pelos leitores desse canto – meus amigos e meus amores. E não ter-los perto é que me faz ter um pouquinho mais de saudades de casa.

Anyways, espero poder voltar a atualizar isso aqui em breve, não com relatos de Madrid, porque não é um blog de viajem, mas com os meus textos característicos. Agora com o laptop e entrando finalmente na rotina (uhu, vou pra faculdade ter aula pela primeira vez hoje =P) talvez me surja um pouco mais de inspiração.

Adiós ;P

quinta-feira, agosto 07, 2008

Eu juro!


Eu vou jurar.

Vou jurar que sabia de tudo antes mesmo que tudo existisse. E que senti tudo o que sentia antes mesmo que o sentimento surgisse. E agora, conforme persiste, não direi nunca que com ele não sei lidar.

Irei jurar que as melhores decepções da minha vida, ida, foram também as piores. E que indiferente à tudo o que sente, minha mente não soube separar o que era para entender o que era para esperar.

E conforme juro, juras puras de quem não mente, vejo que tudo na minha frente é comprido e sem final. Não cheguei, afinal, ainda à metade do caminho que gostaria de traçar.

Eu juro que meus passos são curtos e lentos de quem busca apreciar o caminho, caminhando sozinho, olhos desatentos ao todo e buscando contar os detalhes das coisas que não consegue enxergar.

E se for forçado, eu juro que não disse nada do que eu deveria dizer, que não cantei metade do que queria cantar, que não sorri tudo que deveria sorrir e que ao chorar, não chorei as lágrimas que acumulei ao aguardar.

Mas se eu mesmo, que tanto juro as juras de quem não sabe sobre o que jurar, não consigo entender onde quero chegar, tudo o que fiz e o que ainda vou fazer, tudo o que magoei, e errei, e desisti, jamais poderei cobrar que você entenda, perdoe, acerte, persista.

Mas juro que, no final, manterei-me fiel as palavras que disse com o peito, soluçando daquele jeito indecente, que mesmo soando demente, sua alma teme adorar.


E ao amor. E à dor.
Eu juro.

terça-feira, julho 22, 2008

No meu banheiro não entra merda!

Estava discutindo as peripécias literárias de alguns autores com o amigo escritor, cartunista, trapezista, modelo e atriz Leandro Leocadio, quando comentei que o livro dele (de poesias, “Os Desmandamentos”, vide links para mais informações) estava no meu banheiro.

Ele não sabia bem se isso era bom ou ruim. Digo então - é bom! Explico que no meu banheiro estão somente os livros e revistas que eu gosto de ler, já que não tenho tempo para ler nada fora do trono, e que o fato do livro dele estar lá dentro quer dizer que eu realmente li, leio, e eventualmente deixo respingar água da torneira sobre.

Pior seria se estivesse na estante. Livros de estante são exatamente isso – livros de estante, desculpem-me a obviedade. E pra que eles servem? Acumular poeira, cupim, virar coleção ou servir pra exibir sua intelectualidade á um eventual convidado. Também podem funcionar de apoio de mesa/cadeira, Santo Kotler que me perdoe, mas o Administração Em Marketing é um excelente nivelador de mesa de bilhar.

No meu banheiro só quem tem direito a fazer merda sou eu, tomo todo o cuidado do mundo para não sobrecarregá-lo com merdas externas (como bem apontado pelo próprio Leocadio). O último livro ruim que passou por lá causou um cano entupido, que eventualmente se abriu exatamente sobre a capa de material tosco do próprio, inutilizando-o por toda a vida.

O livro do Leocadio não corre esse risco. Correria, talvez se custasse mais do que realmente custa, mas pelo preço módico de uma refeição na Temakeria acaba sendo uma permuta mais do que justa e uma das minhas melhores aquisições nos últimos anos, ao lado do CD especial dos anos 80 do Biquíni Cavadão.

Brincadeiras à parte, acessem ali do lado, vale a pena. Se até eu e o Moacir Scliar gostamos...

sexta-feira, julho 11, 2008

Casamento!


Recentemente meus avós completaram 50 anos de casamento, um número assustador. Como um cara complicado e que eventualmente acaba enjoando das coisas e das pessoas acaba sendo muito difícil conceber a possibilidade de ficar 50 anos ao lado de um mesmo alguém, porém, não parece ser impossível.

O segredo não é tão secreto assim. Reconheci-o largado tranquilamente durante um bate papo sem maiores pretensões, contido em uma frase da minha avó: “Você só tem que se preocupar em casar com alguém que possa se tornar o seu melhor amigo, porque no final é isso que o casamento se torna – uma grande amizade”. Me fez pensar um pouquinho. Não é nada que eu já não saiba, mas de alguma forma fez com que eu lembrasse um pouquinho do antigo Gabriel – um pouco mais romântico, um pouco mais crédulo – e de tudo aquilo que ele acreditava.

Houve uma época em que eu acreditava plenamente que o amor era algo que se construía com o tempo, que crescia conforme os vínculos eram criados – muito além da paixão de um relacionamento curto -, e que por mais que o passar do tempo pudesse apagar a paixão “posto que é chama”, e que pudesse modificar o amor, ele se desenvolveria em algo sublime – um respeito mútuo pelo que o parceiro representa, o conceito puro por detrás da expressão francesa “adore”. Não consigo enxergar um lugar, hoje, que isso se aplique mais do que em uma “grande amizade” – o respeito mútuo, os interesses em comum, os vínculos que se fortalecem, as escolhas e a liberdade de ser autêntico e sincero.

Porém, não consigo ver as mesmas questões dentro dos relacionamentos atuais – vejo pessoas com medo da entrega e de criar vínculos (e perder, com isso, uma liberdade ilusória), muitas vezes incapazes de deixar o ego de lado pelo outro e de mostrar sua verdadeira faceta – com lindos defeitos assim como méritos – por achar que isso é um demérito, ou que pode afastar o outro alguém. Vejo pessoas que não conseguem estabelecer um compromisso, respeitar o próximo, entre tantas outras problemáticas. Talvez por isso é que existam, hoje, muito mais grandes amizades do que grandes amores, e seja também o motivo dessas amizades durem bem mais tempo que nossos romances.

Eu nunca dei apoio à instituição “casamento”. Casaria, é claro, fosse esse o desejo da pessoa que eu escolhi viver junto para o resto da minha vida, mas é somente nisso que eu acredito – que, hora ou outra, vai existir alguém que eu escolherei viver junto para o resto da minha vida. E eu duvido muito que essa pessoa seja alguém que eu encontrei perdido por ai, que tive um bom momento com, sem envolvimento pessoal, pura física, e depois segui meu rumo. É muito mais possível, e provável, que se desenvolva de uma grande amizade – do jeito que eu acreditava antigamente, mais romântico e mais ingênuo que era. Tudo muito naturalmente, é claro – é muito remota a possibilidade de que a manifestação de um sentimento esteja vinculada ao fato de você tentar e se esforçar muito para que ela aconteça (aprendi isso à duras penas, embora hoje conheça outras formas de deixar as coisas acontecerem e facilitar a ida e vinda de sentimentos), é algo instintivo – surge quando você não espera, o que o torna muito mais interessante – desde que você esteja disposto à.

Isso não quer dizer, no entanto, que eu ou qualquer pessoa devamos deixar de aproveitar todo o resto que o amor, a paixão e o sexo podem prover. Sempre fui um homem de vários “amores da minha vida”, que construiu grandes castelos e com o tempo superou suas ruínas. Quer dizer que simplesmente não devemos fechar as portas e desacreditar em belas parcerias, porque na hora certa elas chegarão.

domingo, junho 08, 2008

Eu não sei brindar.



São poucos os momentos mais constrangedores para mim do que o brinde. Quer dizer, eu não sei brindar. Eu até vou bem quando outra pessoa faz o brinde e você só repete as palavras e todos chocam seus copos uns contra os outros ao mesmo tempo no centro da mesa. O problema é quando a mesa é longa e do nada as pessoas sentem a necessidade de brindar com todos os copos da mesa.

Vira aquela zona!

Não sei se só levanto o copo em cumprimento e faço um maneio com a cabeça, ou sei passo por cima de dois braços cruzados, um copo à meia altura e por trás de uma cabeça para conseguir chegar ao copo do companheiro sentado na ponta. O pior é que são poucas as pessoas mais desastradas do que eu, o risco de derrubar alguma porção do líquido na roupa de um dos objetos no caminho é enorme.

Não fosse isso suficiente, acho que meus conhecidos tem um prazer enorme em me ouvir falar, porque já é recorrente me mandarem ter a “honra” do brinde. Será que ainda não perceberam que eu não faço a mínima idéia do que dizer? A primeira coisa que eu penso, lógico, é em um brinde pela existência da Scarlett Johanson, mas as mulheres provavelmente não me seguiriam. Depois é me vem uma sequência de discursos de miss: “Paz mundial? No oriente médio, então?”, o pior é quando o negócio é financeiro, tipo “Saúde e Dinheiro”, ou “Pela queda do dólar!”. Normalmente eu poderia dizer “pelos amigos”, ou “pelas gostosas”, dependendo da mesa, mas não é isso que todo mundo diz? Então porque eu?!

O foda é que depois de tudo isso ainda querem que eu lembre que se não beber depois de brindar fico sete anos sem trepar. Mas caralho, depois de minutos de taça erguida, o meu reflexo é sempre colocar ela na mesa e retomar minhas forças – preciso testar esse negócio de exercício físico um dia desses. Daí fodeu, botei na mesa. Já to acumulando uns 1250 anos sem trepar, e pelo menos uns 500 sem meter, já que normalmente a bebida demora pra chegar e eu a peço quando estou – óbviamente – com sede, então bebo-a antes do brinde. Se esse negócio realmente funcionasse eu tinha rodado faz tempo.

É que nem bolo de aniversário, eu também não sei cortar bolo de aniversário. Aquele papo de fazer um circulozinho no meio não funciona pra mim. E não sei como se corta algo com outra coisa que não seja uma faca com dentes, ainda mais de baixo pra cima. Eu acabo destruindo meus bolos de aniversário. Tudo bem, eu nem como bolo, mas não deve ser legal pras outras pessoas. Mas antes de chegar nessa parte de cortar o bolo você tem, claro, que fazer uns pedidos enquanto apaga as velas.

Eu não faço um pedido enquanto apago velas a pelo menos uns 5 anos. Não é que eu não acredite na força do pensamento positivo, é que nunca vi uma droga de um desejo desses realizados e fiquei parte da minha infância me questionando se é porque eram grandes ou pequenos de mais para o momento. Vai saber, de repente desejo de bolo tem uma área de atuação, não é livre. Então na hora de fazer o desejo eu acabo perdendo tanto tempo pra escolher um que seja moderado porém importante o suficiente para ser realizado que a vela acaba se apagando sozinha.

Como eu curto o cheiro da vela apagando várias e várias vezes e gosto de ficar ressuscitando-a, acabo apagando eu mesmo rapidinho sem desejo. Daí vem sempre alguém perguntar “o que você pediu eiiinh? Aposto que foi [ insira aqui as palavras: dinheiro, namorada, saúde, felicidade, e outros mil clichés ]!” ao que eu respondo, roboticamente “haha, não posso dizer, se não realiza né!?”, e a pessoa “acerteeeei neh! Você ta vermelho”, e eu penso “eu sou gordo, fiquei vermelho por assoprar as velas. Fiquei vermelho por falar, fiquei vermelho por respirar, carajos, eu fico vermelho por existir, faz parte da condição de ser um gordinho branquela”, mas não respondo, dou uma risadinha.

Acho que a única parte bacana desse negócio de bolo é escolher pra quem vai ser o primeiro pedaço. É do caralho, levo essas coisas a sério. Receber o primeiro pedaço de alguém quer dizer que a pessoa pensou primeiro em você, te deu a importância de comer o primeiro pedaço de bolo, então eu escolho bem pra quem dar, acho legal.

Embora o primeiro pedaço, normalmente, seja o mais destruído pela minha falta de coordenação motora.

quinta-feira, junho 05, 2008

A Beleza das Memórias




Me pego vez em quando lembrando algumas coisas que pensei já ter esquecido a muito tempo. Minha memória é frágil, pouco confiável, e por isso esses momentos acabam sendo de uma beleza tão especial quanto fugaz. Não é comum que eu me emocione sem motivo ultimamente, acho que perdi um pouco da suposta sensibilidade que sempre me atribuíram. Mas ainda me emociono com essas inserções espontâneas de lembranças, talvez por ser sempre pego desprevinido.

Algumas vezes, engraçado, é como se eu ficasse à deriva. Boiando de lado enquanto algum cheiro, algum som, alguma cena me faz lembrar algo que eu não lembrava mais. Como um filme de baixo orçamento (perdão pela analogia clichê) em que os atores principais lembram de leve alguém que eu conheço, ou conheci, porque raramente eu mesmo sou o personagem principal das minhas memórias. É estranho lembrar de você fazendo alguma coisa, como se fosse uma câmera filmando de cima o seu “eu-ativo”. Não. Enxergo-me talvez como um narrador, ou um espectador em terceira pessoa, ou somente alguém que estava ali, sabe lá porque, e vivenciou aquelas coisas todas.

O mais impressionante é como algumas cenas são ligadas especificamente a algumas ações ou sensações. Eu lembro sempre da mesma pessoa, de manhã, quando minha mãe sai do banho – alguém que usava o mesmo shampoo, provavelmente, e que o cheiro automaticamente me faz sussurar o nome, como num estalo – puxa, essa pessoa realmente passou pela minha vida. Ou como vira e mexe eu ainda travo para atravessar a rua, inundado de flashes da vez que eu fui atropelado. Coisas que, se eu buscar na minha memória com vontade, talvez lembre, mas que não fazem parte daquele grupo seleto de lembranças citadas diariamente – experiências re-aproveitadas por algum motivo.

Engraçado... Tenho lembranças que não me pertencem, também. Eu vivo algumas cenas, na minha cabeça, que por algum motivo foram isoladas da minha vida, auto-defesa talvez, e que embora eu conste nelas, me parecem pertencer muito mais às outras pessoas que viveram-nas comigo do que a mim mesmo, e talvez por isso me impressionem bastante quando por algum motivo ressurgem, enquanto eu me pergunto “o que diabos você está fazendo aqui?”. Algumas vezes acho que é culpa da minha imaginação fértil – tento buscar em algum ponto adormecido do meu cérebro onde o resto delas pode estar, ou ao que elas estão ligadas, ou até mesmo onde, quando e como eu as vivi, e muitas vezes só consigo chegar a uma série de hipóteses e “serás”.

Acho que o bacana das memórias é como elas são únicas e pessoais. É muito raro que as pessoas todas dêem o mesmo valor para as situações que vivem, eu valorizo algumas coisas, você outras, e assim formamos memórias importantes de diversos momentos que vivemos juntos, cada um com as suas e juntas, completas. Eu me prendo sempre na insignificância dos detalhes, é deles que lembro mais. O que pode parecer cômico para quem me conhece de verdade e sabe que normalmente eu tento observar sempre o todo da cena. É um exercício de atenção e de raciocínio – observar o todo. Mas na hora de me lembrar, lembro de alguns detalhes. Em brigas ou declarações de amor, lembro de algumas palavras, de um gesto importante, de uma ação e ali deposito toda a significância do acontecimento sem muitas vezes fazer idéia de tudo que levou até ali, outras vezes sequer consigo lembrar os motivos. Não me parecem tão importante quanto aquele detalhe – aquele detalhe que pontuou o fato.

Tudo isso porque hoje estou doente. Nada de mais, provavelmente, mas por estar doente estou mais sensível do que o normal e por algum motivo que não sei explicar acabei me emocionando com uma lembrança totalmente fora de mão enquanto assistia o jogo do Fluminense, uma das lembranças repentinas mais bacanas que já tive. Até me motivou a escrever. Que bom! Já ia fazer um mês.


Obrigado pelas memórias.

sexta-feira, maio 09, 2008

Vincent.


O sangue batizou a espada conforme ela rasgava a pele apodrecida das criaturas que se arremessavam na direção dela. No sentido contrário, o homem que a empunhava tomava impulso semelhante, tornando o choque ainda mais violento e os poucos transformava o piso sólido do galpão em uma espécie de pântano avermelhado e escorregadio de sangue.

As roupas negras estavam encharcadas. Não sabia dizer se aquilo era água do próprio corpo ou o sangue dos outros, não importava. Os cabelos negros e longos as vezes cobriam parte da sua visão, mas só tornavam sua figura mais impressionante – o brilho amarelado dos olhos por trás das franjas era assustador. O mais inusitado daquela cena, era, no entanto, o pequeno fio branco que ligava o aparelho de mp3 ao pequeno fone no seu ouvido – estava intacto.

“I’m feeling mean today, not lost, not blown away. Just irritated and quite hated – self controls brake down. (Estou me sentindo malvado hoje, não estou perdido, não estou surpreso. Apenas irritado e carregado de ódio – meu auto-controle se rompeu.)”

Movimentou a espada horizontalmente à frente do corpo e protegeu-se do choque de ombros de um homem duas vezes seu tamanho. Teve tempo de observar o braço do gigante descolando-se do corpo e caindo no chão conforme fez um segundo movimento, enquanto pulava para trás, golpeando uma criaturinha cinzenta que vagamente lembrava um homem que correu em sua direção pela esquerda.

“Why is everything so tame? I like my life insane, I’m fabricating and defeating you. I’m gonna kick around! (Porque é tudo tão sem graça? Eu gosto da minha vida insana, eu estou fabricando e derrotando você. Eu vou quebrar tudo!)”

Rolou pelo chão em uma cambalhota à frente e buscou com os olhos seu alvo do outro lado do galpão. A mulher de cabelos brancos tinha os cenhos franzidos e uma expressão de preocupação. Desviou de uma faca arremessada na sua direção pegando-a pelo cabo em uma velocidade alucinante e arremessando-a de volta contra uma garota jovem, assustada, de não mais de vinte anos que parecia deslocada naquele ambiente – não fosse pela camisa estampada “Eu sou uma Mutação”.

“Right now! Can’t find a way to get across the hate when I see you. Right now! I’m feeling scratch inside, I want to search and feel you. Right now! I rip apart the things inside that live beside you. Right now! I can’t control myself but I fuckin’ hate you. (Agora mesmo! Não consigo contornar o ódio que sinto quando vejo você. Agora mesmo! Eu sinto uma coceira lá dentro, eu quero procurar e sentir você. Agora mesmo! Eu arranco fora as coisas lá dentro que vivem ao seu lado. Agora mesmo! Eu não consigo me controlar mas eu realmente te odeio.)”

- Ah, Vincent... Porque você não esquece tudo isso e vai pra casa? Você é como eu...

Ele ergueu os olhos na direção da mulher e ela estava apenas à alguns metros de distância agora. Por alguns momentos os olhos amarelados pareciam tomados por uma coloração vermelho-sangue. Pulou para desviar do que pareceu uma lâmina passando rente ao seu ombro e ajoelhado, atravessou a lateral do corpo do homem que o atacou, a ponta da espada saindo do outro lado, “como um espeto”, ele pensou.

“You open your mouth again I swear I’m gonna brake it. You open your mouth again, by God I cannot take it. Shut up, shut up, shutup or I’ll fuck you up! (Se você abrir sua boca de novo eu juro que vou quebrá-la. Se você abrir sua boca de novo, meu Deus eu não agüento mais. Cala a boca! Cala a boca! Calaboca ou eu vou te ferrar!)”

Tomando impulso com os joelhos, saltou para frente, segurando o cabo da espada junto ao corpo com a palma de uma das mãos, a ponta da arma apontada para a mulher. Ela parecia assustada demais para mover-se, e ao vê-lo saltando naquela velocidade, não teria tempo nem se quisesse. Sentiu apenas o ferro frio atravessando seu ombro e quando deu por conta, encarava duas pequenas íris ovais, felinas, de um tom amarelo doentio.

A música do mp3 parecia dar o ritmo aos seus movimentos e quando ela terminou, Vincent manteve-se parado, segurando o cabo da espada e fitando os olhos de Faith – a mulher que um dia ele amou. Perdeu-se em pensamentos por alguns segundos fitando-a nos olhos, enxergava tudo de forma mais lúcida agora. Lançou um olhar rápido para trás e viu os corpos que rasgara em poucos minutos ao chão, não conseguiu conter um sorriso sádico com o canto dos lábios finos e rosados.

Até que a música começou de novo.

“Realized I can never win, sometimes I feel like I’ve failed. Inside where do I begin, my mind is laughing at me. Tell me why I’m I to blame – aren’t we supposed to be the same. That’s why, I will never change this thing that’s burning in me. (Percebi que eu não posso nunca vencer, algumas vezes eu sinto que eu falhei. Lá dentro como eu começo, minha mente está rindo de mim. Diga-me porque eu sou o culpado – nós não devíamos ser iguais? É por isso, que eu nunca vou mudar essa coisa que arde dentro de mim.)”

Com um movimento rápido ele removeu a espada que atravessava o ombro da mulher, espirrando sangue e tingindo o cabelo prateado de Faith de vermelho. Ela caiu de joelhos. Ele a levantou pelo pescoço com o braço, erguendo-a o mais alto que conseguia enquanto apertava forte com a ponta dos dedos.

“I am the one who choose my path. I am the one who couldn’t last. I feel alive for the pain. I feel the anger changing me. (Eu sou aquele que escolhe meus caminhos. Eu sou aquele que não poderia restar. Eu me sinto vivo pela dor. Eu sinto a fúria me mudando.)”

Vincent respirou fundo, moveu o pescoço de um lado para o outro, relaxando-o com dois estalos altos para em seguida deixar o corpo ferido de Faith escorregar até o chão indefeso. Ela respirava ofegante, enchendo o pulmão com todo ar que conseguia.

- Da próxima vez, Faith, não vai ser assim. Graças a você estão todos mortos. Você nos traiu. Da próxima vez... eu não vou ter compaixão. Eu não sinto mais nada – por você, por ninguém, eu sou só um corpo vazio e o vazio não tem medo – o vazio não tem nada para sangrar.

Limpou a lâmina da espada na própria roupa e guardo-a na bainha oculta dentro do sobretudo, deu as costas e com passos lentos partiu, desviando dos corpos estirados no chão.

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Observações:

Vincent é um personagem criado por mim, Faith é um personagem da Mai, o desenho é dela e as cores são do Thelder. Eles são personagens de um cenário de RPG antigo e ele é a minha personagem pessoal favorita, entre todos que eu já fiz. Já tentei 20 mil vezes tentar fazer um HQ dessa galera, mas nunca dá certo, hoje tava afim de escrever algum conto e decidi usá-los. Quem sabe não faço mais depois.
As músicas do conto são do Korn, chamam-se Right Now e Did My Time.