sábado, dezembro 22, 2007

Novo Conto

O brilho avermelhado da pequena chama redonda brilhava longe na noite cálida. Toda vez que ele tragava o cigarro, e soltava a fumaça no ar displicentemente, fechava os olhos firmemente, franzindo todo o cenho, como se fosse a ultima vez que a nicotina tomaria conta de seus pulmões. Quando abriu os olhos novamente, olhou ao seu redor, como se tentasse situar a sua posição no ambiente.

Era um prédio alto, e ele sabia que uma queda significaria a morte. O terraço, se é que podia ser chamado assim, estava coberto de neve – não branca e limpa, mas cinzenta e suja da fuligem que escapava das chaminés próximas. Não tinha frio, estava bem protegido para alguém em uma situação limite como a dele, o sobretudo longo de couro sintético era abrigo suficiente, embora deixasse de ser assim que a neve decidisse cair novamente. Não se preocupava, no entanto, com a volta da neve. Não estaria mais ali quando acontecesse.

Baixou o cigarro dos lábios róseos e caminhou até a borda do terraço, desprotegida e escorregadia, com um sorriso mórbido na face. Equilibrou-se, pendeu o corpo para frente e observou a queda. Depois, varreu com o olhar a rua à frente, o prédio do outro lado da rua e todo o movimento. Tinha certeza que a vida das pessoas lá embaixo iria mudar drásticamente em alguns segundos – chocaria-as com doses cavalares de realidade, invadiria, com um único gesto, a sua intimidade inviolável.

O silêncio que idealizava em sua mente foi interrompido pela Cavalgada das Valkírias, irrompendo de um dos bolsos internos do sobretudo. Suspirou, irritado, e tirou um pequeno aparelho celular, abrindo o flip e levando até a orelha. Mantinha-se equilibrado na borda com displicência.

- Sim?

A voz do outro lado era conhecida, doce, preocupada, feminina. Ele sabia quem era antes mesmo de atender – vantagens da telefonia moderna -, porém, manteve-se seco e frio, o que causou breve pausa em sua interlocutora.

- Fred? Onde você está? Como você tá? Tá tudo bem?

Uma avalanche de perguntas que ele não queria responder.

- Perdão, Milla. Mas não posso falar com você agora, estou ocupado.

Mentira.


- Ocupado com o quê? Esqueceu que iámos jantar!? Eu te esperei até agora... passei no seu apartamento, você não estava lá. Onde você está? Preciso te ver... temos que conversar!

O tom de voz da mulher tornou-se choroso, carregado de uma preocupação afetuosa.

- Desculpe, pequena. Perdão, mas não nos veremos mais. É hora de dizer adeus. – Ele caminhou pela borda do prédio até chegar à um dos vértices, o que dava melhor visão da calçada e da rua, mais próximo à mesma, o lugar ideal para sua despedida.

Ela soltou uma exclamação de terror.

- Como assim, adeus? Onde você está? Não... Fred, não vai fazer nada idiota, eu posso te ajudar, você não precisa fugir de mim.

Ele riu baixo.

- É tarde de mais para me ajudar. O que tem que ser, tem que ser. Talvez em outra vida, pequena... quem sabe? Tenho certeza que nos veremos em outro lugar, um dia desses, quando tudo for diferente.

- Fred? Fred... não... por favor... não...

Ele baixou a cabeça, ainda segurando o celular junto à orelha, coberta pelos cabelos negros e pouco mais compridos que o natural. Os olhos azuis fixaram-se no chão.

- Sinto muito.

Ele ergueu os olhos, as pupilas levemente dilatadas e assumiu uma faceta resoluta. Colocou o celular no chão, ao lado do seu pé e agaixou-se, jogou a bituca de cigarro para baixo, retirou de dentro de uma armação de metal ocultada no sobretudo um rifle de precisão. Manuseou-o com habilidade e em poucos segundos já havia disparado. O som demorou mais do que a bala para alcançar seu objetivo.

Antes que Milla pudesse terminar de falar “Eu te am...” a bala do rifle atravessou sua cabeça e seu corpo, inerte, foi jogado para trás, tombando, morto. A bala entrou fina, mas saiu em um enorme buraco, espirrando sangue na porta do prédio à suas costas, do outro lado da rua de onde Fred disparou. O prédio onde ele morava, e onde sabia que ela iria procurá-lo.

Jogou a arma de lado, recolheu o celular do chão e chamou um número da memória do aparelho. Uma voz masculina atendeu.

- Está feito. A mulher está morta.

Desligou, caminhou até a escada, no caminho recolhendo a sua mala de viagens que ali deixara apoiada, e partiu.

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PS:

O conto não tem nome, aceito sugestões. Curtinho. Pensei nisso agora a pouco quando fui tomar água. Fazia tempo que não escrevia um continho.

3 comentários:

andréa disse...

Nha...gostei =D
Continue postando...é legal quando vc se inspira \o/
beijinhos!

Flines disse...

Ahn... O que eu ia dizer mesmo? Acho que uma prostituta bêbada passou aqui gritando na janela e me roubou o pensamento.

Shame.

Anônimo disse...

bom, porém tragico.

inspiração legal.