segunda-feira, julho 13, 2009

La Mer


Ela despertou, levantando-se da cama king size de lençóis pretos – um fetiche bizarro dele. A porta para a sacada aberta permitia que o vento gelado do fim de tarde invadisse o quarto e esfriasse ainda mais o ambiente. Vestiu uma camiseta dele que estava largada em um canto do quarto – quase um vestido para ela, em seu metro e meio de altura. Esfregou os olhos e caminhou na direção da porta aberta.

Ele estava sentado em uma cadeira velha de balanço, uma das mãos no colo, apoiada sobre um exemplar antigo de “The Unbearable Lightness of Beeing” por Milan Kundera. A outra mão segurava um copo de Scotch “on the Rocks”. Os olhos acompanhavam o movimento das ondas do mar a poucos metros da sacada da casa de dois andares construída diretamente na areia da praia.

- Não tá com frio? – ela se aproximou, tocando com suavidade o ombro dele com uma das mãos.

- Hm? – pareceu despertar. – Não sei... agora que você me lembrou, acho que um pouco... – ele ergueu os olhos na direção dela e deu um gole rápido na bebida. Ela se aproximou e beijou delicadamente os lábios dele.

- Você não deveria estar escrevendo? Quer dizer... não foi pra isso que viemos até aqui? – ela soou preocupada. Ele demorou para responder.

- Não. Viemos aqui porque concordamos que uma viagem ia ser divertida – porque eu não sou divertido o suficiente na cidade – e talvez, para que você pudesse me ensinar a nadar e eu não vá morrer afogado na próxima vez que um dos seus irmãos decidir me dar um caldo na piscina rasa da sua casa de campo...

Ela riu.

- Obrigado.

Ele arqueou a sobrancelha.

- Porque?

- Por vir comigo. Eu sei que você odeia praia...

- Eu não odeio.

Ela apoiou as costas contra o batente que protegia a sacada de uma queda curta até a areia macia e branca.

- Claro que odeia. Você vive dizendo...

Ele interrompeu. – Eu nunca disse que odiava praia.

- Ah é? E quantos anos faz que você não vem à praia?

- Uns 10.

- Então a última vez que você viu o mar tinha 15 anos? E diz que não odeia praia!

Ele se voltou a ela, a expressão agora um pouco mais séria. Bebericou de novo do scotch e esboçou um meio sorriso irônico com o canto dos lábios.

- Eu disse que fazia 10 anos que não vinha à praia. Não tenho nada contra ela, eu aqui em cima, ela lá embaixo. Acho ela linda... meu problema é com a areia, com o sol, com a água salgada, com as pessoas de biquíni e sunga, com os frisbees, com os bichos-de-pé, com o esgoto que deságua na água, com o mijo das crianças, com as crianças, com os pais das crianças, com os vendedores de picolés, com as pipas e com os vendedores de pastel...

Ela riu de novo.

- Você não gosta de praia!

- Eu gosto do mar.

- Você nem sabe nadar...

- É por que eu gosto muito do mar.

Ela pareceu confusa. Sempre caía nas ironias dele.

- Não entendi.

- Eu gosto da sua mãe, nem por isso transo com ela.

Ela fez cara de assombrada.

- Como isso pode fazer algum sentido para alguém?

- Eu respeito o mar, por isso me mantenho longe dele. – ele riu e bocejou baixo. – Ele é incrível, o padrão das ondas, a cor de esmeralda, sua violência sutil, sua sutileza violenta, a forma como ele acaricia os banhistas ao mesmo tempo que suas correntes o puxam para si, querendo possuí-los. O mar é sentimental e imprevisível. Poderoso. Eu admiro sua magnitude, e por isso, me mantenho longe – em reverência. Entende?

- Aham... entendo. – ela gargalhou.

- O que tem de engraçado?

- Você...!

- Eu?

- É...!

Ele bebeu de novo do Scotch, a sobrancelha arqueada, intrigado.

- Porque?

- Só um escritor para falar tanta besteira sem sentido somente pra justificar...

- Justificar o que, garota?

- Que você se mija de medo do mar. E da minha mãe.


3 comentários:

Ana disse...

Huahaauahauahuaha esse final foi muito bom!! Acho que esse foi um dos textos que mais gostei até agora, está engraçado sem ser algo forçado. :)

Flines disse...

Mudar o título não significa atualizar.

Mentiroso.

Bia disse...

Ficou mto bom esse texto! Eu tbm amei o final!!! ahuhauhauhUHAUHAUHAHUHUA! ri aq sozinha! mto boba!